Quinta-Feira, 26 de Novembro de 2020

20/10/2020 - Osasco - SP

Estilista osasquense cria marca de roupa que exalta cultura afro-brasileira e periferia




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Editorial Aprofunk, do estilista osasquense Anderson Paz / Foto: Raphael Queiroz

Você sabia que em Osasco existe um estilista da periferia que criou a sua própria marca de roupas afro-brasileira? O Visão Oeste conheceu o trabalho e a história de Anderson Paz, de 36 anos, e preparou uma matéria especial para falar sobre suas criações, inspirações e muito mais.

Anderson nasceu na capital paulista, mas foi criado no Jardim Veloso, na periferia de Osasco. Formado em fonoaudiologia, o osasquense, que é casado com Amanda Paz e pai da pequena Lorena, de seis anos, trabalhou por algum tempo na área da saúde, mas decidiu dar outro rumo à sua vida profissional. “Fiz o curso técnico de fotografia na Etec de Carapicuíba e ao sair de lá, passei a trabalhar mais com fotografia de moda, comecei a atuar em agências de modelo, preparar editorais e casting de modelos”, explica, em entrevista ao Visão Oeste.

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Anderson, Lorena e Amanda Paz/ Foto: Reprodução/Facebook

 

Em 2017, Anderson e sua amiga Marcela Barbosa abraçaram o desafio de criar uma marca própria de roupas e juntos fundaram a SantaPaz Brand, uma empresa pensada em produzir peças com valores mais acessíveis, mas que tivesse um retorno justo à toda a equipe envolvida, e nasceu sua primeira coleção. “Começamos com produções bem pequenas porque a gente é de periferia e não tinha um recurso de R$ 10 mil para começar uma coleção, por exemplo. Então a gente começou com pouquíssimo. A primeira coleção que a gente fez, cada um deu R$ 50 e com esse dinheiro compramos os tecidos”.

A SantaPaz foi fundada com o objetivo de criar peças que pudessem ser compradas por amigos e pessoas mais próximas, todas da periferia, que não têm condições de pagar R$ 200 em uma camiseta ou R$ 500 em um vestido. Com isso, o desafio se tornou ainda maior porque, segundo ele, essa iniciativa sairia em contra partida com a realidade encontrada no mundo da moda.

 

“A nossa preocupação era que as nossas peças atingissem esse público, mas que não fossem tão baratas a ponto de que a cadeia de produção, desde modelos, fotógrafo, estilista, modelista e costureira recebessem pouco por esse trabalho porque esse é um grande problema nessa área: empresas enormes produzem coisas imensas, ganham muito dinheiro e pagam pouco para quem está na linha de produção. E o nosso objetivo era que isso não acontecesse na nossa marca porque não era cabível que a gente fizesse uma peça e pagasse dois reais para uma costureira ou cinco reais para uma modelista, que leva horas para fazer uma modelagem inteira, por exemplo”, continua.

 

 

Para que o objetivo da marca fosse alcançado, a esposa de Anderson foi alguém que o ajudou muito. Amanda Paz chegou a ser a única modelo da SantaPaz, pois a empresa não tinha condições de pagar modelos para posarem nos primeiros editoriais. Com o passar do tempo, Marcela se desligou da marca e Anderson prosseguiu com a empresa, onde encontrou sua maior paixão em meio às produções, escolha de tecidos, desenhos, corte e costura, além da produção das fotos e editoriais.

“Empreender é uma caminhada mais difícil para a gente que é negro”

 

Atualmente, a SantaPaz não tem loja física e vende suas peças exclusivamente pelo site ou por meio do Instagram. Anderson chegou a alugar um box na região central de São Paulo, mas ao ser impedido de abrir as portas devido à pandemia de covid-19, não conseguiu manter o espaço e teve de fechar.

 

Para Anderson, a experiência de empreender tem sido suada e é um dos maiores desafios enfrentados por ele. “Se você começa uma marca, precisa registrá-la para que não usem o nome dela em outros lugares e isso leva muito dinheiro, muitas pessoas não conseguem. Eu consegui graças a minha esposa, mas foi uma caminhada mais difícil para a gente que é negro”, diz.

 

O osasquense revela ainda que a forma como o empreendedorismo é mostrado na internet não é tão simples de se colocar em prática para quem vive na periferia. Até se instalar no mercado, fazer com que as pessoas conheçam a marca e entendam o propósito dela pode levar muito tempo e o retorno também não vem em poucos anos de trabalho.

 

 

“As pessoas pintam o empreendedorismo como a coisa mais fácil do mundo, a gente vê isso na internet. Fui assistir em diversos cursos e as pessoas falam que começaram e em um ano já estão superfaturando, mas começaram investindo com sei lá, R$ 30 mil. Os pequenos empreendedores não têm esse dinheiro para investir, não têm condições e por isso muitas empresas fecham. É muito difícil até você se instalar nesse mercado e eu ainda estou nesse processo de me instalar e de ser notado”, defende.

 

Segundo o estilista, enaltecer o trabalho de pessoas negras tem se tornado “moda”, mas consumir os produtos ou serviços dessas pessoas ainda é algo limitado. “Já fui diversas vezes na avenida Paulista expor araras para vender as minhas peças. O público adora ver, mas acha um absurdo quando um negro cobra R$ 80 em uma bata. Então, essas pessoas quase não consomem de pessoas negras e empreender, trabalhar com moda afro sendo negro é muito mais complicado”.

Produzir em meio à pandemia: editorial Afropunk, sua nova coleção

 

Como Anderson destacou, a pandemia trouxe diversos impactos à sua marca. As coisas começaram a ficar mais difíceis para o pequeno empreendedor, que se viu obrigado a fechar a única loja física que tinha. Mas os prejuízos não foram apenas financeiros, pois o osasquense estava engajado nos preparativos de sua nova coleção quando o mundo foi acometido pela covid-19 e foi forçado a recuar.

 

Durante seu tempo isolado, Anderson se aproximou muito mais de sua família. O WhatsApp foi a ferramenta responsável por aproximá-lo e com isso, o osasquense passou a conversar mais com seus avós, primos e tios, e encontrou a inspiração que não podia buscar em outros lugares para voltar a produzir suas peças. Assim nasceu o seu novo editorial e sua nova coleção chamada “Afropunk”.

“Criar no meio de uma pandemia tem sido bem complicado porque é um tempo em que estamos ‘presos’, não tem como sair e não tem como se inspirar em outros lugares. Ainda estamos no momento de reclusão e a Afropunk foi inspirada nesse tom de regresso”, explica.

 

Com a inspiração à parte, colocar o projeto em prática foi outro mega desafio para o estilista osasquense. A marca que nasceu com todo um viés social teve de se adaptar para manter seus valores. Os tecidos passaram a ser encomendados com antecedência e, por duas vezes, Anderson foi de carro ao Brás para buscá-los, com horário agendado e seguindo todas as medidas de proteção e segurança.

A coleção “Afropunk” foi produzida com uma logística completamente diferente de tudo o que Anderson já havia feito no ramo da moda. A iniciativa só foi possível com o auxílio de um grande amigo, o fotógrafo Raphael Queiroz. Juntos, eles pensaram em toda uma estrutura e colocaram as ideias em prática.

 

“Estudamos a localização, possibilidades, cenários e fizemos a fotografias em cima da casa da minha avó, que é na periferia de Osasco. Isso teve a cara da SantaPaz”, destaca o osasquense. “Da laje da minha avó, a vista é maravilhosa e retrata a nossa periferia, onde as pessoas são estilosas e andam bem arrumadas. É logico que temos problemas sociais e políticos, que precisam de atenção, mas enquanto não se resolvem, a gente continua e é por isso que pretendo dar esse retorno e olhar para a sociedade onde vivo, da forma que vejo”, continua.

Com as peças de sua nova coleção prontas e seu estúdio improvisado na laje, Anderson começou a receber os modelos para fotografar, todos parceiros da marca. “A cada fim de semana a gente recebia dois modelos, que chegavam aqui em casa, tomavam banho e mesmo quem veio de longe, a gente fez todo um procedimento para evitar a contaminação das pessoas envolvidas, mas foi um processo muito longo de produção”.

Inspirações e parcerias que fizeram a diferença

 

A SantaPaz tornou-se então uma marca com uma história singular, periférica e difícil, mas que contou com a ajuda de diversas pessoas. O apoio da família de Anderson foi, para ele, uma das questões mais importantes. Além de sua esposa, seus pais, amigos e parentes sempre buscaram incentivá-lo.

 

Anderson diz o quanto é agradecido pela oportunidade de trabalhar com modelos como Gabriela Fabiola, Monike Carvalho, Bruno Otavio, Tauany Almeida e Rafaella Alves. Ele cita também a alegria de poder contar com Raphael Queiroz, profissional responsável pela parte fotográfica e toda a direção de arte da marca. “O Raphael é maravilhoso, está sempre junto comigo”.

 

Ambos se conheceram quando estudavam na Etec e a amizade rendeu uma parceria de trabalho criativa e singular. “Venho acompanhando de perto as iniciativas do Anderson e vejo muito potencial, principalmente nos diversos aspectos socioculturais que ele traz na identidade da SantaPaz”, afirma o fotógrafo.

Em relação às referências para a criação de suas peças, todas atreladas à cultura afro-brasileira, Anderson destaca os estilistas baianos Isaac Silva e Carol Barreto. Para conhecer a nova coleção da SantaPaz, acesse o site ou o Instagram da marca



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